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Cidade Múltipla, 2000-2010

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Comecei a fotografar a cidade com câmeras artesanais (pinhole) no final da década de 90. A simplicidade do processo me fascinou de imediato e passei a pesquisar as possibilidades do aparato, tanto no sentido técnico como estético. O orifíco feito com agulha estabelece uma abertura fixa e diminuta que, associada ao uso do papel fotográfico como material (pouco) sensível, limita os registros a situações de muita luz natural e longos tempos de exposição. As 5 câmeras pinhole artesanais usadas nesse ensaio têm de 1 a 5 furos de agulha abrindo-se ao inesperado, com imagens se formando em lentos e sobrepostos depósitos de tempo na prata sensibilizada. Este ensaio constroi uma São Paulo ao mesmo tempo estranha e familiar, revisitando alguns de seus ícones arquitetônicos com um olhar multiforme. 

Vestígios do Carandiru, 2002-2004

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Meses antes da implosão da Casa de Detenção de São Paulo, fui convidado a registrar o último jogo de futebol da carceragem. Atraído pelo interior do ‘casarão’, me embrenhei nas centenas de xadrezes do pavilhão 8, já desocupado. Apesar de vazias, as celas ainda portavam os vestígios de seus habitantes nos recortes descascados, objetos íntimos, cartas, imagens de carros, paisagens e santos. A fascinante onipresença de ícones femininos, eróticos, eventualmente pornográficos, parecia contribuir

para amenizar a solidão superlotada: a imagem da mulher como escape e transcendência do

claustro. Registrei os espaços desocupados. Recolhi os objetos cuja materialidade julguei indispensável para simbolizar a complexidade

da experiência prisional. Combinados, as fotografias e os restos das coisas formam a série Vestígios: caixas que guardam estratégias de sobrevivência de vidas guardadas.

Homens de Sal, 2011- 2015.

Esta é uma obra de ficção. Uma representação de um real possível, mediado pelo aparato, pela edição, pela emoção e pela imaginação. O mote é o sal, substância 

que faz parte significativa da história do homem. De caráter simbólico, em diversas culturas aparece em rituais de proteção e purificação; em outras, representa a incorruptibilidade, ou mesmo a amargura. De grande valor, quando raro já foi moeda de troca e salário de soldados. Seu poder de conservar alimentos é o mesmo que corroi o ferro e resseca a pele do salineiro, marcada pelo sol, pelo vento, pelo tempo. Personagem de um ofício que se mantém inalterado desde o século dezenove e que tende a desaparecer lenta e  silenciosamente, calando o arrastar metálico das pás, o gemer dos carrinhos de mão, o puxar dos rodos, o pavonear dos cataventos. 

Um lugar em que a paixão e o desencanto se misturam, originando cristais brilhantes na água salgada. 

 

O suporte eleito, composto de papel aquarela, sal e prata, carrega na superfície imagens de um mundo à parte. A aplicação manual do sensibilizante com pincel, 

agregou o gesto, aumentando a presença do acaso no processo do papel salgado, cuja técnica, precursora da fotografia, incorpora organicamente à imagem o produto bruto extraído da salina.

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Haveneros, 2001

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Este ensaio fotográfico é fruto de uma imersão
curta porém intensa no dia-a-dia de Havana.
São instantâneos, registros de um país que
vive um cotidiano de opiniões e sentimentos
contraditórios, que mesclam as dificuldades econômicas, virtudes sociais e sonhos destruídos da Cuba que eu vi.

Sombra do Porto, 1996-1999

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Esse ensaio junta duas de minhas fascinações: o mar e as embarcações. Na época o Porto de Santos estava sendo privatizado e as práticas de manuseio de carga estavam em vias de mudar para sistemas automatizados. Meus registros captam o trabalho braçal dos estivadores como ainda era feito no final da década de 1990.

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Amanda, 1993

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Amanda é a garota adolescente que transformei em tema do meu ensaio durante workshop com a fotógrafa Mary Ellen Mark, no Maine, EUA. Acompanhei seu cotidiano durante quatro dias após pedir permissão aos seus pais. No início ela adorou a idéia, mas no final do trabalho estava bem cansada da minha câmera.

Retratos

 

Ensaio realizado nas salinas de Paraia Seca, Monte Alto e Figueira - Lagoa de Araruama, Rio de Janeiro.

© Ricardo Hantzschel 

 

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